5 de Novembro – Shostakovich
19 de Novembro – Os nacionalismos: Fréderic Chopin e Franz Liszt
26 de Novembro – Ópera e Literatura
Seminário Permanente sobre Europa 2009/2010
«Depois do século XX, sabemos, e pagámos bem caro este saber, que não basta o trato e a convivência com as grandes tradições e os grandes textos para nos tornarmos melhores; sabemos como as cidades, de humanos lugares de encontro e comunhão, se podem tornar nas ferozes selvas de solidão e alheamento ou até nessas desventradas ruínas, como mostram as fotografias de Dresden e Varsóvia depois da guerra. A barbárie, confessemo-lo, não é apenas uma ameaça recente; do tratamento dado ao cadáver de Heitor, puxado pelos cavalos de Aquiles, a cabeça outrora bela batendo nas pedras da planície de Tróia, à brutalidade cega do 11 de Setembro e dos recentes ataques terroristas, a barbárie ora se insinua como uma serpente no fulgor do gesto, ora se abate com a violência brutal de uma crueldade impenitente. Tal facto, porém, não provoca a falência da cultura, não pode provocar a falência da cultura, nem pode ser pretexto para qualquer desistência; obriga-nos apenas a uma redobrada vigília.
Sabemos e não esquecemos que por entre os versos de Vergílio e de Dante, ao lado de Shakespeare e de Racine, de Santo Agostinho ou de Kant, de Thomas Mann ou de Joyce, de Pessoa, a nossa europeia história carrega o fardo de pesadas sombras: fanatismo e intolerância, tirania e escravidão, arrogante ignorância, desfiguradora manipulação, acabrunhante banalidade. Sabemos, todavia, também, e não esquecemos, que desta mesma história se ergue dominante a voz de uma ideia de homem, de um homem que não está disposto a que o privem da sua memória milenar, que não consente lhe amordacem a sua ânsia de infinito e o seu desejo de imortalidade, que não permite o mutilem e o diminuam, fazendo-o menos do que é, que atraiçoem a autenticidade da sua interrogação, enfim, que não aliena a sua superior vocação de comungar com o outro, em gesto e em palavra livres, a aventura do que vai descobrindo e vivendo».